segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Artigo Wagner Baldez: O PRAZER DA VOLTA! (Conto)



Por Wagner Baldez (*)

Passado alguns meses, voltamos à casa do Senhor Zemetério (compadre do Guarda- Fios), cumprindo, assim, o trato combinado.

Era um domingo, por tradição o dia reservado para visitarem amigos, parentes e, em algumas ocasiões, aqueles que viviam em localidades mais afastadas. Citado passeio era uma das pouquíssimas diversões de que dispunham os moradores dessa região; o que, aliás, lhe proporcionavam imensa satisfação!

Encontramos o compadre Zemetério (tratamento por afinidade) no terreiro da casa, reunido com amigos a trocarem um “dedo de prosa”; o que tornava o ambiente aconchegante! Dispostos em círculos, sendo o centro ocupado pela pessoa do compadre, por ser ele o principal personagem a comandar a palestra.

De vez em quando explodiam as gargalhadas causadas pelas estórias contadas pelo dono da casa.

Nos momentos apropriados, o compadre alterava a voz:
- Epifânia, tá na hora do moca!

O qual era sorvido com todo o prazer! Em cada rodada os consumidores saudavam a bebida com o refrão: viva o único preto que é recebido com cortesia nos salões dos brancos!

A partir desse momento foi que eles deram com a presença dos visitantes, o que tornou o ambiente mais alegre, ao ponto de contagiar os participantes, incentivando-os aos cumprimentos afetuosos!

Bem, companheiros, em homenagem aos amigos recém-chegados, vou relatar um caso que se passou comigo há poucos dias quando viajava para cidade de Pedreiras.

A certa altura, atravessando o grotilhão mais acidentado do trajeto, fui surpreendido por vozes estranhas, assemelhando-se a um canto de reisado. Entretanto, por encontrar-me um tanto afastado do local donde procediam as vozes, não dava para entender o significado. Tomando chegada, comecei a distinguir o que, até então, era incompreensível: Uma voz arquejante, como se alguém lhe apertasse a garganta, apelava:

- Ai Jesus!...

Em côro, vozes misteriosas respondiam:

- Não tem Jesus, não tem nada, hoje você vai! Sendo que as notas eram agudas.

Um tanto assustado, me veio a dúvida: Como pode isso acontecer, se não existe moradia nessas imediações?!

Ainda assim resolvi partir em direção do local suspeito, embora a escuridão fosse por demais tenebrosas, pelo fato de ser noite chuvosa!

De revolve em punho, penetrei no recinto: uma espécie de caverna, cuja cobertura era formada por intrincado cipoal, para aquelas bandas conhecido como mufumo.

Assustei-me, já que vozes ecoaram próximo de onde me encontrava!

De imediato liguei a lanterna, deparando-me com uma cena estranha, capaz de paralisar qualquer cristão!

A essas alturas, o pessoal já bastante agastado, porém na mais completa expectativa em desejar saber do que se tratava, se precipitaram em afirmar ser o “Rabudo”!

Qual nada, respondi em seguida!

Então, o que era, finalmente?!

Nada mais nada menos que um “sapo boi” agredido por duas muriçocas, com os ferrões introduzidos no “pano da costela” do pobre animal, deixando-o imobilizado em razão da perda de sangue.

Urgentemente, procurei retirar o sapo da incomoda situação.

Puxa Zemetério, você nos fez sofrer mais do que o castigo imposto ao sapo!

Embora tenha passado por esse angustiante drama, houve o lado pitoresco: pois não é que na volta, ao passar pelo local da ocorrência, perfilados estavam dois mil sapos a cantarem em côro, como que expressando a sua gratidão: Aqui viemos para saudar o nosso protetor...
Agradecei a calorosa mensagem, e logo segui viagem.

Zemetério, você é um gênio por saber seduzir os ouvintes, através das suas bens contadas estórias!

Vá com Deus! Assim foi o grito uníssono dos que lá se encontravam no momento da saudosa despedida!!!.


(*) Wagner Baldez - Servidor Público Aposentado, membro do Comitê de Defesa da Ilha, um dos fundadores do Instituto Maria Aragão. Integra a Executiva Estadual do PSOL/MA