quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Artigo Wagner Baldez: A ÁRVORE DE NATAL NO CAÇULÂNDIA


Por Wagner Baldez (*)

Era um costume de nossa tia Mundica montar sua árvore de natal: atividade realizada há mais de 50 anos; inclusive tornando-se uma das maiores paixão de sua vida!

O que mais se destacava nessa obra era a originalidade, devido ao fato da árvore por ela criada possuir característica própria, bem diferente das tradicionais árvores armadas no interior das casas residenciais urbanas: modelo esse que dá um aspecto bastante atraente, em razão da decoração possuir uma variedade de peças coloridas, auxiliada pela iluminação do tipo “pisca-pisca”.

Portanto, dita árvore servia para enfeitar o ambiente enquanto a outra tinha uma função social! como veremos adiante...

Passemos, então, a reproduzir como eram conduzidos os trabalhos que antecediam a instalação da citada árvore.

Três dias antes, tínhamos como missão receber nossa tia Mundica e comitiva na Estação da estrada de ferro do Maracanã, já que o transporte usado era o trem e com elas as peças que compunham a árvore de Natal.

Tão logo amanhecia, a turma já se encontrava no ponto de cumprir a tarefa recomendada. Caminhando em direção à Estação, indo a nossa frente o carro de boi de Seu Domingos, todo enfeitado de bandeirinhas.

Ao recebermos os caravaneiros, retornávamos ao ponto de partida e, alegres, cantávamos as marchinhas inspiradas nos acontecimentos vividos naquele momento!

Por todo trajeto ouvia-se os aplausos dos moradores, em comovente e entusiástica saudação: “viva dona Mundica Sousa”!

Chegando ao Caçulândia, a mesa do café já se encontrava à disposição do pessoal...

Seguindo a orientação do patriarca Clóvis Sousa, carinhosamente chamado de Seu Có, foram dando início aos trabalhos. A cargo do Seu Domingos e Alípio foi executado no terreiro da casa o plantio de duas árvores tiradas no mato. Numa delas seriam penduradas os vestidos para crianças do sexo feminino e na outra os brinquedos distribuídos para ambos os sexos.

Seu Có, como uma espécie de Rei da Folia, transformou o ambiente numa praça de diversão, começando com o levantamento do pau de sebo. Agregando a essa brincadeira havia a matança do pato, do peru, a corrida do saco: diversões essas que despertavam nos assistentes imensas expectativas e gargalhadas a valer, em razão dos disparates cometidos pelos disputantes.

Essa iniciativa acontecia após a distribuição dos presentes para a criançada, procedente dos povoados circunvizinhos.

Além desse passatempo, não faltavam as presenças dos vendedores de produtos da própria comunidade, tais como: o gelado raspado, tendo como vendedor Florêncio, conhecido por geladeiro; as cocadas gostosíssimas de maracujá, feitas por Baiata, por sinal a moradora mais antiga do lugar; beiju com café, bolo de todas as espécies. Só não era permitida a venda de bebidas alcoólicas.

Assim que encerrava a programação – isso no fim do dia –, surgia o foguetório, inusitadamente, deixando o pessoal bastante agitado. Era a despedida... e a saudade pesando na alma da multidão, que já fazia planos para comparecerem na mesma época do ano vindouro, tal a felicidade experimentada!

Torna-se imperativo ressaltarmos o comparecimento das pessoas que, embora residindo em outros estados, nunca deixaram de comparecer ao citado evento, em razão do grau de amizade que nutriam pela família Sousa!

Entre tais personagens constavam a senhora Undine e Ely, seu esposo, e ainda o seu irmão Afrânio; José Maria Bílio e família, Walter Mendes e família, Carlos Melo, Cláudio Rolan e Maria Aragão e muito outros cujos nomes no momento não me assoma à mente.

Também nesse festival, da mesma forma se encontravam presentes as pessoas amigas da família, e residentes em nossa capital. Todos os citados, inclusive, colaboravam materialmente com o evento de forma espontânea.

Eis um dos motivos pelas quais a promotora da árvore de natal capitalizou a simpatia, admiração e conseguiu ser profundamente querida, ao ponto de se tornar hóspede eterna das nossas lembranças, ainda que postumamente!!!



(*) Wagner Baldez - Servidor Público Aposentado, membro do Comitê de Defesa da Ilha, um dos fundadores do Instituto Maria Aragão. Integra a Executiva Estadual do PSOL/MA