terça-feira, 1 de março de 2016

Artigo Wagner Baldez: A INGÊNUA REVELAÇÃO DO ÍNDIO CIRILO



Por Wagner Baldez (*)


É muito comum na cidade de Barra do Corda (MA) assistirmos aos índios Canelas e Guajajaras perambulando pelas ruas. São esses silvícolas verdadeiros andarilhos, tendo por costume viajarem em agrupamentos.

Vindos de longa distância: os Canelas, do Sertão (região de Chapada); já os Guajajaras, habitam nas matas.

Várias as histórias envolvendo esses aborígenes, principalmente os Guajajaras, cujo comportamento se difere dos Canelas; haja vista as traquinagens cometidas  por alguns deles quando em visita à sede do município.

Entre tantas outras, reproduziremos, mais adiante, o incidente ocorrido com o índio Cirilo.
Reconhecidamente, os Guajajaras são chegados ao consumo de cachaça; aliás, ato não permitido pelo SPI (à época, Serviço de Proteção ao Índio).

Numa dessas incursões, Cirilo, de maneira sutil, procurou se desgarrar do seu bando, tomando rumo ignorado, a fim de meter a sua “rama crua”, assim procedendo escaparia da vigilância dos funcionários do órgão federal, como também dos agentes policiais!

O grupo, sem nenhuma notícia do paradeiro do companheiro, retornou à aldeia, por não ser permitido se afastar mais de três dias do seu habitat.

O certo é que Cirilo, completamente bêbado, inclusive perdendo a noção do tempo e de tudo considerado condenável, fora flagrado pelos policiais com a garrafa de cachaça virada no sentido da boca: isto em plena via pública!

O comércio tinha conhecimento da proibição da venda desse tipo de bebida para os índios, sendo penalizado caso infligisse referida regra.

Cirilo fora conduzido à delegacia de polícia. Em lá chegando, apresentaram-no à autoridade máxima da Segurança Pública, no seu triste e lamentável estado de embriaguez.

O delegado ordenou que Cirilo se sentasse, a fim de responder as perguntas que lhe seriam feitas.

- caboclo, tu não sabes que é proibido o uso de bebida alcoólica?

- com a voz um tanto fraca e as palavras trôpegas, respondeu: sabo, cumpadre (esta é a forma do índio tratar o branco), como essas coisas acontecem... mas te prometo não mais entrar nessa.

- muito bem, caboclo! Agora eu quero que me digas qual a pessoa que te vendeu referido produto?

- Cirilo, a essas alturas agastado, começou a resmungar baixinho e respirar com uma certa dificuldade, respondeu: isso não! Isso não vou te dizeres.

- caboclo, saiba que caso te recuses fornecer o nome da pessoa, ficarás preso até que te decidas responder o que te pergunto, inclusive receberás como castigo bolos de palmatória e ficarás sem comer e beber. Compreendeste?

- Peraí... tô tomando chegada do assunto. Agora, fica tu sabendo que pode me prender, me surrar ou até me matar, mas da minha boca eu te dizeres que foi o velho Chicuto que me vendeu a cachaça, nunca! Isso não vai acontecer. (O índio sempre usa no masculino as palavras femininas, como vem de ser o caso. Portanto, a pessoa que lhe atendeu foi a velha Chicuta).

Tão cômica fora a cena, que provocou entre os presentes fortes gargalhadas!

O delegado, num tremendo esforço para evitar o riso, apenas concluiu: vou te soltar caboclo, mas vai chegar o dia em que tu descobrirás o nome da pessoa.


- Isso nunca, repetiu o índio: Nunca! Só faltava essa de querer fazer o índio de covardo e traidoro! 



(*) Wagner Baldez - Servidor Público Aposentado, membro do Comitê de Defesa da Ilha, um dos fundadores do Instituto Maria Aragão. Integra a Executiva Estadual do PSOL/MA